Caio CésarPsicanálise

Por que eu repito os mesmos erros? O que é a compulsão à repetição

Por Caio César, psicanalista · 09/10/2026 · 5 min de leitura

Mudou de cidade, de emprego, de parceiro, e a história parece a mesma. A pessoa nova tem outro rosto e faz a mesma coisa que a anterior. Quase todo mundo já passou por isso, e a primeira reação costuma ser pensar que o problema está nos outros, ou que falta força de vontade. A psicanálise olha para esse fenômeno de outro jeito.

O que Freud percebeu

Em 1914, num texto chamado Recordar, repetir e elaborar, Freud observou que o paciente não recorda o que esqueceu e reprimiu: ele repete isso em ato, sem saber que está repetindo. O que não pôde ser lembrado volta nas escolhas, nas brigas, no jeito de se aproximar e de se afastar das pessoas. Ele já falava em compulsão à repetição nesse texto. Em 1920, em Além do princípio do prazer, voltou ao tema e propôs que a repetição pode ir além da busca de prazer.

Como isso aparece na vida real

  • Relações que terminam do mesmo jeito, com pessoas que parecem diferentes no começo.
  • Empregos em que a pessoa se esgota, é pouco reconhecida e sai, para repetir tudo no seguinte.
  • Brigas que seguem o mesmo roteiro, com as mesmas frases, do primeiro insulto ao silêncio final.
  • A sensação de que você já viveu aquela cena antes, e de que não sabe como saiu dela.

Nem toda repetição é compulsão

Vale ter cautela. Às vezes a gente repete porque o contexto não deixa alternativa, porque virou hábito ou porque ninguém ensinou outro caminho. A psicanálise fala de compulsão à repetição quando há algo na história da pessoa que empurra para a mesma cena, mesmo quando ela sabe que vai doer. Só a escuta de cada caso diz qual dos dois está em jogo.

O que a análise faz com isso

Como a repetição acontece em ato, ela também aparece na relação com o analista. A psicanálise chama isso de transferência, e é por ela que a repetição pode ser escutada. Freud chamou o caminho de elaboração: dar palavras ao que só se repetia. Quando a cena ganha palavra, ela deixa de acontecer sozinha, e a pessoa passa a ter uma escolha onde antes tinha um roteiro. Isso leva tempo e não tem prazo garantido.

Por onde começar a observar

  • Qual cena se repete na sua vida, contada em uma frase?
  • Em que momento dela você costuma dizer que não tinha como ser diferente?
  • A quem essa cena lembra, na sua história?

Você não precisa responder tudo agora. Perceber o desenho já muda a relação com ele.

Perguntas rápidas

O que é compulsão à repetição?
É o termo de Freud para a tendência de repetir situações dolorosas em vez de lembrá-las, como se a pessoa voltasse sempre à mesma cena sem saber por quê.
Repetir os mesmos erros significa que tenho um problema psicológico?
Nem sempre. A repetição pode vir do contexto ou do hábito. Quando ela insiste mesmo contra a vontade da pessoa, vale conversar com um profissional.
A análise faz a repetição parar?
Ela oferece um lugar para dar palavra ao que se repete, e muitas pessoas passam a escolher onde antes só repetiam. Não existe promessa de resultado nem de prazo.

Este texto é informativo. Ele não faz diagnóstico, não indica tratamento e não substitui a consulta com um profissional de saúde.

Continue lendo